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O que é a DMT?

A N,N-Dimetiltriptamina é uma substância psicoativa produzida por animais (inclusive seres humanos) e plantas. Ela é largamente encontrada na chacrona e em uma planta conhecida como Jurema Preta, muito disponível nas vegetações do Nordeste.

Um pouco mais sobre essa molécula...

A N,N-dimethyltryptamine (DMT) é um alcalóide indol amplamente encontrado em plantas e animais. A DMT foi sintetizada pela primeira vez em 1931 pelo químico canadense Richard Manske,e isolada em 1946 pelo químico brasileiro Oswaldo Lima (1908–1989) a partir da casca da raiz da jurema preta (Mimosa tenuiflora)(1).

Nos seres humanos a DMT é encontrada em níveis mais elevados nos pulmões, na tireoide e na glândula adrenal. Em níveis intermediários, é encontrada na placenta, músculo esquelético, coração, intestino delgado, estômago, pâncreas e nódulos linfáticos. Muito embora os mecanismos de sua biossíntese, metabolismo, função, e modo de ação sejam largamente desconhecidos, evidências sugerem que a DMT endógena participa de vários processos no sistema
nervoso central e periférico, e que talvez atue como neurotransmissor (2,3)


Isoladamente, a DMT não produz efeitos quando é administrada por via oral, uma vez que é degradada por enzimas monoamina oxidase (MAO) presentes no trato gastrintestinal, impossibilitando sua chegada até o sistema circulatório, e ao sistema nervoso central. Na ayahuasca, porém, a presença de inibidores da MAO, como a harmina, protege a DMT de ser degradada, e lhe confere efeito representativo sobre o cérebro e outros órgãos (4).


Os primeiros estudos em seres humanos com DMT isolada ocorreram em 1956, conduzidos pelo químico e psiquiatra húngaro Stephen Szára, que administrou DMT por via intramuscular (IM) em 20 voluntários saudáveis (5). Desde então, estudos mais recentes (N=124) têm sugerido perfil de segurança associado à administração de DMT. Além da administração parenteral, a DMT isolada também tem sido utilizada por outras vias, como a subcutânea, inalatória, e sublingual (6-9).


Os efeitos são transitórios, duram entre 20 min (IV ou inalada) e 1 hora (IM), não é observada tolerância, nem overdose (10,11). Em doses mais baixas (0.01 mg/kg IV) leva a estados de relaxamento e conforto, e em doses mais altas (0.4 mg/kg IV) tem efeitos rápidos e intensos, com mudanças significativas do estado de consciência, que sob várias características remonta um estado de sonho (8,11).


Central para a criação e avaliação de novas terapias é a compreensão dos mecanismos pelos quais elas funcionam, o que no caso de substâncias psicodélicas parece estar ligado a dois aspectos distintos.


Nossos estudos sugerem que a resposta terapêutica é resultado da combinação entre a modulação das vias neuroimunes, neuroendócrinas e de neuroplasticidade importantes para a regulação homeostática, bem como de algumas características da fenomenologia dos efeitos agudos da substância (13-16). Por um lado, observamos que os efeitos antidepressivos da ayahuasca foram correlacionados a aspectos da experiência, como por exemplo, alterações de percepção visual e auditiva durante a experiência com ayahuasca. Por outro lado, observamos que os efeitos antidepressivos foram correlacionados a marcadores de estresse, como o cortisol (14), marcadores de neuroplasticidade, como o BDNF (16) e marcadores de inflamação, como a proteína c-reativa (PCR) (15).

 

Assim, neste ensaio apoiado pelo Hospital Onofre Lopes/UFRN, Instituto do Cérebro/UFRN e Biomind Labs, pretendemos avaliar os efeitos agudos e subagudos da DMT em diferentes marcadores biológicos, e comportamentais, primeiramente em voluntários saudáveis e em seguida em pacientes com depressão resistente ao tratamento.

Referências

1. Lima, O. G. Observações sobre o ‘Vinho da Jurema’ utilizado pelos índios Pancarú de Tacaratu (Pernambuco). Arquivos do Instituto de Pesquisas Agronômicas 4, 45–86 (1946).
2. Barker, S. A. N, N-Dimethyltryptamine (DMT), an Endogenous Hallucinogen: Past, Present, and Future
Research to Determine Its Role and Function. Front. Neurosci. 12, 536 (2018).

3. Carbonaro, T. M. & Gatch, M. B. Neuropharmacology of N,N-dimethyltryptamine. Brain Research
Bulletin vol. 126 74–88 (2016).
4. McKenna, D. J., Towers, G. H. N. & Abbott, F. Monoamine oxidase inhibitors in South American
hallucinogenic plants: Tryptamine and β-carboline constituents of Ayahuasca. J. Ethnopharmacol. 10,
195–223 (1984).
5. Szara, S. Dimethyltryptamin: its metabolism in man; the relation to its psychotic effect to the serotonin
metabolism. Experientia 12, 441–442 (1956).
6. Pallavicini, C. et al. Neural and subjective effects of inhaled N,N-dimethyltryptamine in natural settings. J. Psychopharmacol. 35, 406–420 (2021).

7. Davis, A. K. et al. Survey of entity encounter experiences occasioned by inhaled N,N- dimethyltryptamine: Phenomenology, interpretation, and enduring effects. J. Psychopharmacol. 34,1008–1020 (2020).
8. Strassman, R. J. Human psychopharmacology of N,N-dimethyltryptamine. Behav. Brain Res. 73, 121–

124 (1996).
9. Strassman, R. J. & Qualls, C. R. Dose-response study of N,N-dimethyltryptamine in humans. I. Neuroendocrine, autonomic, and cardiovascular effects. Arch. Gen. Psychiatry 51, 85–97 (1994).

10. Rosenberg, D. E., Isbell, H., Miner, E. J. & Logan, C. R. THE EFFECT OF N,N- DIMETHYLTRYPTAMINE IN HUMAN SUBJECTS TOLERANT TO LYSERGIC ACID DIETHYLAMIDE. Psychopharmacologia 5, 217–227 (1964).
11. Strassman, R. J., Qualls, C. R. & Berg, L. M. Differential tolerance to biological and subjective effects
of four closely spaced doses of N,N-dimethyltryptamine in humans. Biol. Psychiatry 39, 784–795
(1996).
12. Timmermann, C. et al. Neural correlates of the DMT experience assessed with multivariate EEG. Sci.
Rep. 9, 1–13 (2019).

13. Palhano-Fontes, F. et al. Rapid antidepressant effects of the psychedelic ayahuasca in treatment-resistant
depression: a randomized placebo-controlled trial. Psychol. Med. 49, 655–663 (2019).

14. Galvão, A. C. de M. et al. Cortisol Modulation by Ayahuasca in Patients With Treatment Resistant
Depression and Healthy Controls. Front. Psychiatry 9, 185 (2018).
15. Galvão-Coelho, N. L. et al. Changes in inflammatory biomarkers are related to the antidepressant effects
of Ayahuasca. J. Psychopharmacol. 34, 1125–1133 (2020).
16. de Almeida, R. N. et al. Modulation of Serum Brain-Derived Neurotrophic Factor by a Single Dose of
Ayahuasca: Observation From a Randomized Controlled Trial. Front. Psychol. 10, 1234 (2019).